Há sempre duas vozes quando um sistema está prestes a ruir: a que diz que está tudo bem e a que diz que está tudo perdido. Raramente alguma tem razão e ambas são mais altas do que as de quem está a fazer o trabalho a sério. Foi a desconfiança dessas duas vozes que um engenheiro, depois de mais de 20 anos a impedir que sistemas complexos cedessem sob a sua carga, trouxe para dentro da crise climática.
O Clima sem Mitos, de Rui Manuel Barreira, não é nem um livro de alarme, nem de consolo. É uma leitura serena, e por isso rara, de um problema que costuma gerar tudo menos serenidade, sendo feita na escala em que de facto se decide: das instituições, das infraestruturas, do capital e da engenharia paciente do possível.
No centro, uma convicção aprendida na água fria do Atlântico onde o autor mergulha desde criança: quase tudo o que nos assusta se enfrenta com anteparos e o clima, ao contrário do que dizem os manuais, não se resolve com um preço.